Tem sido cada vez mais comum (jamais normal) vermos pessoas atuando como intérpretes de Libras. Nesse caso, atuando no sentido de representar, pois não são profissionais. Apenas atuam como tal.
Um dos casos mais emblemáticos que eu me lembro foi um suposto intérprete de língua de sinais da África do Sul que, no funeral do Nelson Mandela em 2013, se posicionou ao lado de autoridades como Barack Obama e tantas outras. Aquela pessoa, na verdade, não estava sinalizando nada. Suas mãos e corpo se moviam, mas não havia sentido no que ele fazia.
Sabe qual é o problema disso? Ninguém além das pessoas sinalizantes sabia o que estava acontecendo! Até que alguém botasse a boca no trombone, tudo parecia lindo para quem assistia sem saber a língua de sinais.
Mas vou falar uma coisa: o caso do intérprete falso no funeral do Mandela só veio à tona por conta da denúncia, que gerou ampla repercussão na mídia internacional. Afinal, era o funeral do Mandela, né?
Todos se abismaram. Todos se chocaram. Todos se indignaram. Mas…
Existem intérpretes-fake entre nós. Mais do que você imagina.
Há poucos dias, outro caso de intérprete falso veio à tona: dessa vez aqui no Brasil. O vídeo de um ex-deputado circulou nas redes sociais e gerou muita, muita indignação. Ao lado do homem, havia uma mulher também mexendo suas mãos e braços. Em tese, ela estaria interpretando a fala dele para Libras.
Mas, novamente, o cenário do funeral se repetiu. O que ela fazia não era língua brasileira de sinais. Nem em um nível básico/iniciante. Eram simplesmente gestos e movimentos aleatórios, sem significado. Evidentemente, as comunidades surdas reagiram com muita força e denunciaram aquele absurdo.
O ex-deputado pediu desculpas e disse que havia contratado aquela “intérprete” por meio de uma empresa. Como ele não sabe língua de sinais, confiou que fosse, de fato, uma profissional.
Agora eu te pergunto…
Quem você tem contratado para ser intérprete de Libras?
Os casos dos supostos intérpretes de Libras, tanto no funeral do ex-líder sul africano quanto no vídeo do Instagram, causaram repercussão, porque estavam em muita evidência! O primeiro caso foi televisionado. O segundo, circulou nas redes sociais.
Mas o que acontece em eventos mais fechados, onde não há tanta visibilidade assim? Conferências, reuniões, apresentações, treinamentos, consultas etc.
Infelizmente, com muita frequência nós, que fazemos parte das comunidades surdas, recebemos relatos de pessoas surdas frustradas com os intérpretes que lhes foram fornecidos. (Aliás, quando são fornecidos, né?)
Intérpretes que não dão conta da complexidade de um atendimento jurídico. Que interpretam informações erradas em uma consulta médica. Que não dão conta de mediar a comunicação em um simples atendimento em uma loja. Que, mais do que somar, prejudicam gravemente a comunicação.
E depois as pessoas inferiorizam as pessoas surdas, quando, na verdade, o “”intérprete”” que não fez o seu trabalho (talvez, porque não era um profissional).
A culpa é de quem, então?
Entendo que tanto de quem tem a ousadia de fazer algo assim (pela razão que for) quanto de quem contrata a pessoa, direta ou indiretamente.
Ora, será que ainda não sabemos que tradução e interpretação entre línguas são serviços extremamente especializados? Falando da Libras no Brasil, a profissão é até mesmo regulamentada por lei!
Afinal, quem pode ser intérprete de Libras?
Ao contrário de outros profissionais que trabalham na área da acessibilidade comunicacional, existem diversos requisitos para que uma pessoa possa ser tradutor, intérprete ou guia-intérprete.
O artigo 4o da Lei n. 12.319/2010, modificada pela lei 14.704/2023, é clara e diz que o exercício da profissão é privativo (isto é, exclusivo) para:
- Quem tem diploma de curso técnico em Tradução e Interpretação em Libras.
- Quem tem bacharelado em Tradução e Interpretação em Libras – Língua Portuguesa, Letras com Habilitação em Tradução e Interpretação em Libras ou Letras – Libras.
- Quem tem diploma de ensino superior em qualquer área do conhecimento, desde que tenha curso de extensão, formação continuada ou especialização com no mínimo 360 horas e aprovação em exame de proficiência em Tradução e Interpretação em Libras – Língua Portuguesa.
OU SEJA, não basta saber Libras para ser intérprete! É uma profissão de muita responsabilidade, que exige formação, rigor técnico e ético, além de conhecimento das especificidades da comunidade surda (art 7o, VI).
“Ah, mas eu tenho um primo que sabe Libras”. “Ah, mas um colega de trabalho sabe um pouquinho”. “Ah, mas a gente dá um jeito aqui na empresa e se fala através de mímica.”
Pensa comigo: se essa pessoa que “ajuda”não é, de fato um profissional, quais as possíveis consequências? Não me refiro apenas aos impactos reputacionais no caso de denúncia, mas do (in)acesso à informação e da (im)possibilidade de comunicação.
- Sem uma plena comunicação ou acesso à informação de qualidade, como falar em igualdade de oportunidades?
- Como falar em transparência, equidade, responsabilidade social?
- Como se orgulhar das “políticas de inclusão” da empresa?
“Ah, mas os surdos aqui nunca reclamaram ou falaram nada.”
Pensa comigo de novo: se já é uma dificuldade imensa lutar para ter intérpretes, imagina o medo de ter que reclamar e dizer que o serviço não está sendo bom? Pois é.
E como contratar intérpretes de Libras de verdade?
Agora que você já sabe que não é qualquer pessoa que pode ser intérprete de Libras, você também é responsável por isso – mesmo que você não saiba a língua.
Em primeiro lugar, confirme, junto à empresa que você pretende contratar, se os profissionais têm a qualificação necessária. Não tenha medo de pedir comprovação, certificados, de verificar a legitimidade da documentação. É sua responsabilidade!
Em segundo lugar, peça um portfólio atualizado. Confira os trabalhos realizados, veja se existe experiência comprovada em contextos semelhantes àquele que você pretende contratar. Afinal, também existem muitos nichos diferentes como corporativo, cultural, midiático etc.
Em terceiro lugar, sempre que possível, peça feedback às pessoas surdas sobre os trabalhos realizados pela empresa e seus profissionais. Elas, melhor do que ninguém, vão poder atestar que, de fato, os intérpretes fazem a comunicação acontecer.
Precisa de ajuda com tradução e interpretação em línguas de sinais e soluções em acessibilidade comunicacional, nós da Inclua | Libras e acessibilidade podemos te ajudar. Vamos juntos?